quarta-feira, 16 de junho de 2010

Copa! - Primeira Rodada

Finalizada a primeira rodada, é hora de eu expôr minhas opiniões para o mundo, ou pelo menos para a minúscula fração do mundo que lê este blog (leia-se: minha namorada, meu primo, sei lá mais quem).

Chegamos ao final da primeira rodada justamente com a maior zebra até agora: Suiça 1x0 Espanha. Zebra que representa a glorificação do jogo retrancado frente ao rebaixamento do jogo pra frente, buscando o gol. Essa Copa está consagrando o 1x0, do time que entra pra não perder, na esperança de achar um gol e logo depois voltar a se fechar. As vezes nenhum dos times conseguem gols, ou os dois conseguem apenas um. E fica nisso. Não é coincidência o fato de 12 dos 16 primeiros jogos terem terminado com esses 3 placares (0x0, 1x0 ou 1x1). Consequência disso são jogos chatíssimos e uma competição que caminha para a pior média de gols de sua história (é a primeira copa com média menor de 2 gols por jogo em seus primeiros jogos).


Parece desculpa, mas eu acho que esses jogos horríveis tem uma grande parcela de culpa na bola, somada à altitude. Impressiona como os chutes estão horrorosos e os lançamentos totalmente desmedidos. Já cansei de ver a bola correndo mais do que deveria em lançamentos. Sei lá, os jogadores não desaprenderam a jogar bola em um mês. Não que a bola possa servir de justificativa pra todos os erros, mas eu acho que tem algo aí. Ela é leve demais, e com a altitude, corre muito mais do que o normal. Alguns já pegaram o jeito, espero que isso melhore daqui pra frente.

Voltando à Espanha, não acho que ela tenha amarelado, como já começaram a dizer por aí. Pra mim foi o segundo melhor time dessa copa, atrás, obviamente, da Alemanha e sua goleada solitária de 4x0. Perdeu da Suiça, ok, mas foi muito melhor do que qualquer outro time (inclusive a Suiça). Botou bola na trave, saiu na cara do goleiro algumas vezes, chutou bolas de longe. Falhou na hora de fazer o gol, mas nunca foi fácil fazer gol no time suiço (vale lembrar que na última copa eles foram eliminados sem levar gol algum). Me pergunto como seria se a Alemanha tivesse pego a Suiça. Talvez tivesse ganho, esse time alemão é muito bom, mas com certeza não com a mesma facilidade.


De qualquer jeito, simpatizei com a Alemanha. Gostei do time jovem, unido, com todos os jogadores jogando no país. Coisa difícil de se ver hoje em dia. A Alemanha conseguiu fazer o que a Itália, campeã do mundo, não conseguiu: renovar. Eu sempre torci um pouco pra Itália, mas esse ano está difícil. Time velho, pesado, previsível. Torcer pra um time que tem Iaquinta no ataque é complicado. Vai passar de fase porque o grupo é ridículo, mas depois vai ser um pouco mais tenso. Mas é aquela coisa né, é a Itália, eles sempre fazem essas campanhas aos trancos e barrancos e não é raro acabarem surpreendendo.


Do Brasil, não tem como ter gostado muito. 2x1 contra a Coréia do Norte é pouco, isso é um fato. Mas ao mesmo tempo eu não achei esse desastre que boa parte da imprensa está pintando. O time não jogou bem e voltou a apresentar as velhas falhas pra desarmar retrancas. Há uma falta de movimentação gritante, e um buraco entre a linha de volantes e de meias. Mas de qualquer forma o Brasil conseguiu achar dois gols (bonitos, por sinal) e teve o jogo inteiro sob controle, mesmo quando tomou um gol no final. Gol bobo aliás, eu gosto de pensar que em um jogo mais difícil os adversários não teriam tanta facilidade. But that's just me.


Um pouco melhor que o Brasil foi a Argentina, que contou finalmente com uma grande atuação de Messi, que parou nas mãos do goleiro nigeriano. Se não fosse ele teria sido goleada. Mas ainda assim a Nigéria teve chances de empatar. Se o ataque vai bem, não se pode dizer o mesmo da defesa. Também melhor foi a Holanda, que venceu com alguma autoridade o razoável time da Dinamarca. De certa forma decepcionou, pois muitos (eu incluso) esperavam mais desse time holandês. O time sentiu muita falta do Robben, e deixou a certeza de que infelizmente não há espaço pra Sjneider e Van der Vaart no mesmo time. Eles jogam no mesmo lugar e se embolam, tem que ser ou um ou outro. Com a entrada do Elia o time melhorou muito. Não foi o show esperado, mas a Holanda venceu com segurança um time seguro como a Dinamarca, que não fez uma grande partida mas que deve se classificar contra Japão e Camarões.


Das outras cabeças de chave, França (eu sei que não é, mas é como se fosse) não chegou a ser uma decepção porque eu não esperava grande coisa. Mas jogou mal, e não conseguiu fazer um golzinho sequer no Uruguai mesmo com um a mais em boa parte do segundo tempo. Por último, eu gostei da Inglaterra. Pegou um time encardido, os EUA (que vem evoluindo constantemente) e teria vencido se não fosse o frango ridículo do Green. O time pode apresentar mais, continuo apostando que eles chegam longe nessa copa.


Sobre os outros times, eu me surpreendi com a Coréia do Sul, que fez 2x0 na Grécia jogando bem. Tinha apostado na Coréia como a baba do grupo, mas fiquei feliz de ver que eles tem tudo pra passar de fase. Pelo menos ficou claro que a Grécia não vai. O Uruguai mostrou que tem potencial, mas no grupo deles todos podem passar, inclusive México e os Bafana Bafana, que fizeram o primeiro (e um dos mais legais) jogo. Gana deu um passo enorme pra classificação ao vencer a Sérvia em um jogo horroroso. A Austrália deve fazer figuração.


O Japão também me surpreendeu, esperava mais de Camarões. Mas mesmo assim eu acho que vai acabar dando Dinamarca na segunda vaga. No grupo F, o Paraguai conseguiu um empate com a Itália e está com a classificação encaminhada. Eu tinha simpatizado com o time eslovaco, mas eu fiquei tão puto quando eles fizeram 1x0 e recuaram, diante da PODEROSA Nova Zelândia, que eu achei bom terem empatado no último minuto. Vamos ver se assim pelo menos os times aprendem. Quanto a Nova Zelândia, o fato de terem comemorado tanto um empate com a Eslováquia já diz tudo.

No grupo do Brasil, Costa do Marfim e Portugal fizeram um jogo horroroso. Não faço idéia de quem vai passar junto com o Brasil (isso se o Brasil passar mesmo, mas eu acho que passa), mas eu estou levemente inclinado à Costa do Marfim. Jogou melhor. Mas não acho que nenhum dos dois possa chegar longe nessa copa. Por último, a Suiça praticamente se classificou com a vitória sobre a Espanha. Mas o Chile também venceu, o que deixa esse grupo totalmente aberto. A Espanha vai ter que mostrar serviço. Se Chile ganhar de Suiça, Suiça ganhar de Honduras e Espanha ganhar de Honduras e Chile, os 3 times ficam com 6 pontos. Legal né (y)

Curiosidade: os 5 times sulamericanos obtiveram resultados positivos. Só o Paraguai e Uruguai não venceram, mas empataram com times considerados superiores.

Ficamos na torcida por jogos melhores!



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lembranças (não ficam muitas)

Lembranças é o primeiro filme do "galã" Robert Pattinson pós série Crepúsculo. Confesso que eu não sabia muito bem o que esperar, pois embora ele não faça o melhor dos trabalhos na série, eu não posso dizer que ele seja o responsável pelo fracasso dos filmes (fracasso técnico, não comercial, obviamente). Da mesma forma, o trailer conseguiu chamar a minha atenção, não o suficiente pra ir ver por conta própria, mas o suficiente pra aceitar ver quando sua namorada insiste um pouquinho.

O filme conta a história de um jovem, Tyler Hawkins (Pattison), que vive sob a sombra do suicídio do irmão e de sua péssima relação com seu pai. Contracenando com ele temos a jovem Ally Craig (a linda Emilie de Ravin), que embora tenha uma personalidade bem diferente, também vive sob o peso de uma tragédia: o assassinato de sua mãe. Como elenco de apoio, pra dar uma segurada nos pontos aonde os jovens atores não dão conta do recado temos os veteranos Pierce Brosnan (como o pai de Tyler), Chris Cooper (pai de Ally) e Lena Olin (mãe de Tyler).

Sabe, o filme até podia não ser ruim. É o tipo de filme que tinha potencial, mas os roteiristas simplesmente fizeram as escolhas erradas. O personagem do Pattison poderia ser interessante, mas foi extremamente mal desenvolvido, soando totalmente forçado na maior parte das cenas (não que a eterna cara de blasé dele ajude muito nesse desenvolvimento - fora o exagero nas cenas dramáticas, como na reunião do pai dele). Ele soa um pouco como um Rebelde Sem Causa do século XXI, o que poderia ser bem interessante se fosse a idéia, mas não é. Em momento nenhum eu consegui me conectar com o personagem, sentir o drama dele, entender porque ele se sente daquela forma com o mundo, porque ele tem sua vida tão despedaçada.

O modo como ele conhece a Ally, por exemplo, foi ridícula, não precisava disso no filme. É como se eles tivesse feito isso apenas pra eles terem um motivo pra brigar sério no meio do filme. Sério, uma aposta? Não tinha nada menos clichê e irreal? Assim como a briga do Tyler com o pai dela no começo. Digo, as situações são forçadas demais para parecerem reais, e o que me chateia é que com um pouco mais de capricho as coisas poderiam ter funcionado bem.

Mas mesmo assim o filme consegue se manter bem, segurado pela direção correta do Coulter, mas aí quando chega no polêmico final a vontade que dá é de rir (de fato, boa parte do cinema gargalhou). Novamente, desnecessário na minha opinião. Não era preciso nem muito esforço pra criar uma idéia melhor, mais sutil e significativa. Digo, quando a aleatoriedade faz parte da idéia do filme tudo bem (vide Um Homem Sério), mas aqui a coisa soa totalmente out of place.

No final fica a impressão de uma idéia muito mal aproveitada, mas que ainda assim não chega a causar danos a quem resolver ver.

Direção: Allen Coulter
Ano: 2010
Link: IMDb

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Invictus

Eu sou recente com os trabalhos do Clint Eastwood. Já tinha visto As Pontes de Madison, mas isso tem uns 5 anos e confesso que pouca coisa ficou na minha cabeça. Mas esse mês eu entrei na vibe-clint e vi seus dois filmes oscareados, Menina de Ouro e Os Imperdoáveis. Que detonam. Semana passada, aproveitei a vibe pra ver seu novo filme, Invictus.

O filme narra ascensão de Nelson Mandela ao poder, e seu grande desafio de formar um país unido, com brancos e negros vivendo em paz. Para isso, Clint faz um recorte bem específico, mostrando como o líder sul-africano se utilizou do esporte que é a paixão nacional, o Rugby, para unir brancos e negros. Não que usar o esporte para unir a população em torno de um mesmo objetivo seja novidade para qualquer brasileiro ligeiramente bem informado (leia-se ditadura e o seu "Pra Frente Brasil").

O filme é muito bom, mas carece da consistência apresentada pelos filmes passados do Clint. Um ponto que me incomodou, por exemplo, foi o foco excessivo no recorte escolhido. Não que isso seja algo ruim, mas em diversas cenas temos a impressão que Mandela era meio bitolado, que ele estava, digamos, cagando e andando para os outros problemas (graves) do país, como a criminalidade, a economia, etc. Clint poderia ter simplesmente deixado isso de lado, já que não era o foco do filme, mas não, ele fez questão de botar a secretária do Mandela enchendo o saco dele a cada minuto sobre isso e o cara só queria saber de rugby. Um pouco forçado, eu diria.

Houve também algumas tentativas de dramatizar ainda mais o personagem do Mandela, mostrando como sua família era desestruturada. É feito todo um drama sobre isso em algumas cenas, como quando ele até DESISTE de sua caminhada diária só por terem perguntado sobre sua família ou em uma das poucas cenas que sua filha aparece, pra dar um fora nele sobre uma pulseira. E depois disso, o que temos? NADA. Nada mais é mencionado e resta ao espectador decidir se a vitória no rugby foi suficiente pra família fazer as pazes ou se tudo continuou uma grande merda.

O que mais me incomodou, porém, foi a falta de sutileza em muitas cenas do filme. Tipo a cena do avião: que porra foi aquela? Tentativa barata de criar um clima de suspense, sem a menor necessidade, sem a menor sutileza. E não é como se o Clint não soubesse ser sutil. A sequência do garotinho negro com os guardas ouvindo o jogo no rádio mostra bem do que o Clint é capaz. Foi a melhor cena do filme, by far.

De resto o filme se segura nas atuações do Morgan Freeman, que personificou o Mandela como poucos (seria legal ele ganhar o oscar de ator principal, sendo ele um eterno coadjuvante) e do Matt Damon, que se deu bem fugindo um pouco dos papéis nerds clássicos dele, dando a personalidade certa pro personagem do capitão do time de Rugby sul-africano, sem cometer o exagero de soar muito dramático ou carismático demais. O personagem ficou perfeitamente real nas mãos de Damon.

Destaco também as cenas de Rugby, muito bem gravadas. Quem gosta de filme de esporte sabe o quanto é difícil dotar as cenas de realismo. Clint obteve um grande êxito nesse ponto.

Um bom filme, mas confesso que esperava mais.

Direção: Clint Eastwood
Ano: 2009
Link: IMDb

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Contatos de 4º CUH!

Arg. Eu não costumo ser chato pra filmes, normalmente eu posso até achar um filme ruim (acontece com frequência), mas mesmo assim eu costumo me divirtir. O fato do filme ser ruim não costuma me deixar irritado.

Mas esse filme me irritou profundamente. Eu odeio quando um filme tenta martelar uma idéia na sua cabeça de todas as maneiras possíveis, e esse filme faz isso com uma intensidade que conseguiu me tirar do sério.

O filme narra alguns acontecimentos insólitos ocorridos na cidade de Nome (sim), no Alaska, há alguns anos atrás, aonde pessoas desapareciam sem aparente explicação, algumas mortes bizarras aconteceram até que uma psicóloga apareceu para o mundo dizendo que a cidade estava sendo alvo de abduções por ET's.

Vá lá, não seria um enredo tão ruim assim para um filme mediano de suspense. Na verdade, se o filme se atesse a contar essa história, ele não seria de todo ruim (não seria bom, mas seria divertido ao menos). Mas a coisa começa a complicar quando o filme tenta de qualquer maneira te convencer de que aquela baboseira toda aconteceu de verdade. Em um nível tão apelativo que a primeira cena do filme é a Mila Jovovich (que interpreta a tal psicóloga) contando como ela é uma atriz que estará interpretando não sei quem, e fazendo uma introdução sobre o filme. No fim da cena ela manda "No final, a escolha de acreditar ou não é toda sua".

My ass.

Não bastasse toda essa pressão, o filme inteiro é intercalado com supostas gravações reais, que teriam sido gravados durante os tais acontecimentos. Sério, papo de 75% das cenas serem intercaladas com essas gravações. Chega a um ridículo que no final eu cheguei a conclusão que o filme foi totalmente desnecessário. Afinal, se eles querem tanto que a gente acredite, porque não deixam apenas as gravações "originais"?

Tudo soaria como um documentário, é verdade, mas cacete, se eu quisesse realmente aprender sobre o caso, ou me decidir sobre se eu acredito em OVN's ou não, um documentário seria uma escolha muito mais apropriada. Mas não, eu estava ali para ver um filme, que me entretesse de alguma forma, seja contando uma história real ou não. Digo, caramba, quantos filmes baseados em histórias reais já foram feitos por aí sem essa palhaçada toda? Por causa disso eles se tornam menos críveis?

(Nem pretendo entrar no mérito de acreditar ou não. Sei lá po. Pode ser que seja verdade, vai saber, embora eu seja bem cético com essas coisas. Alguém me falou que uma televisão americana resolveu pesquisar sobre o assunto e constatou que boa parte daquilo tudo é forjado. Mas até aí acreditar ou não na tv americana se trata de uma escolha.)

Como eu disse, se não fosse esse pequeno grande problema, o filme até seria decente. Eu não sou um grande fã de filmes de suspense, dificilmente consigo me assutar com algo desse tipo, mas o filme mantém uma tensão, e gera alguns sustos genuínos.

"No final, a escolho a de acreditar ou não é toda sua"? Com todo esse martelamento, não é a impressão que fica.

Vale pela Milla Jovovich,
ô mulherzinha bonita, viu.

Direção: Olatunde Osunsanmi
Ano: 2009
Link: http://www.imdb.com/title/tt1220198/

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"E Se Eu Não Tivesse que Morrer?"

'Talvez haja duas opiniões sobre a vida na prisão, - disse Myshkin. - Um homem que passou doze anos na cadeia me disse uma coisa. Ele era um dos inválidos sob cuidados do meu professor. Ele sofria de convulsões; às vezes ele ficava inquieto, chorava, até tentou se matar uma vez. Sua vida na prisão foi muito triste, eu te garanto, mas nem um pouco trivial. Mesmo assim, ele tinha como amigos apenas uma aranha e uma árvore que crescia embaixo de sua janela... Mas é melhor eu lhe contar como eu conheci um outro homem ano passado. Foi uma circunstância muito estranha - estranha porque essas coisas raramente acontecem. Esse homem certa vez foi levado junto com outros para o cadafalso e uma sentença de morte foi anunciada pra ele. Ele deveria ser fuzilado por ofensa política. Vinte minutos depois foi anunciado um adiamento, e eles acabaram recebendo outra punição. Mas ele passou o intervalo entre as duas sentenças, vinte ou pelo menos quinze minutos, com a inteira convicção de que iria morrer em poucos minutos. Eu estava sempre ansioso por ouvir quando ele lembrava de suas sensações naquele momento, e costumava o questionar sobre isso. Ele lembrava de tudo com uma extraordinária nitidez e costumava dizer que ele jamais esqueceria aqueles minutos. A vinte passos do cadafalso, ao redor do qual soldados e outras pessoas se juntavam, haviam três postes fincados no chão, e haviam vários criminosos. Os três primeiros foram conduzidos, amarrados aos postes, a roupa da morte (um roupão branco) foi colocada e capuzes brancos foram botados sobre seus olhos para que não vissem as armas; então uma comitiva de vários soldados foi postada de frente para cada poste. Meu amigo era o oitavo da fila, então ele deveria estar no terceiro grupo. O padre foi a um de cada vez com uma cruz. Ele possuía apenas mais cinco minutos de vida. Ele me disse que aqueles cinco minutos pareceram para ele um tempo infinito, uma grande riqueza; ele sentia que ele tinha tantas vidas restando naqueles cinco minutos que ainda não havia necessidade de pensar no último momento, tanto que ele dividiu o seu tempo. Ele separou tempo para se despedir de seus companheiros, dois minutos pra isso; então ele separou mais dois minutos para pensar pela última vez; e então um minuto para olhar para si mesmo pela última vez. Ele se lembrava muito bem de ter dividido o tempo assim. Ele estava morrendo aos vinte e sente anos, forte e saudável. Enquanto ele se despedia de seus companheiros, ele lembrou de ter perguntado a um deles uma pergunta um tanto irrelevante, e de ter estado particularmente interessado na resposta. Então quando ele já havia dito adeus, chegaram os dois minutos em que ele havia separado para pensar sozinho. Ele sabia de antemão sobre o que ele pensaria. Ele desejava entender o mais rápido e claramente possível como poderia ser que agora ele existia e estava vivendo e em três minutos ele seria algo - alguém ou algo. Mas o que? Aonde? Ele pretendia decidir tudo isso naqueles dois minutos! Não longe dali havia uma igreja e seu telhado dourado cintilava na claridade do sol. Ele se lembrava de ficar parado persistentemente olhando para o telhado e para a luz refletida; ele não podia se desligar daquela luz. Parecia para ele que aqueles raios eram sua nova natureza e que em três minutos ele iria, de alguma forma, se fundir à eles... A incerteza e o sentimento de aversão pelo o que esperava por ele era horrível. Mas ele disse que nada era mais terrível naquele momento que o seu pensamento contínuo, "E se eu não tivesse que morrer? E se eu pudesse voltar à vida - que eternidade! E seria toda minha! Eu tornaria cada minuto em uma era; eu não perderia nada, eu contaria cada minuto que se passasse, eu não perderia um!" Ele disse que tal idéia se dotou de tamanha fúria que chegou um momento em que ele torcia para ser fuzilado logo.'



(Príncipe Myshkin, em
O Idiota - Fyodor Dostoevsky)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Schopenhauer e o Vazio da Existência

Achei esse texto no orkut da minha ex namorada. Trata-se de um capítulo (se não me engano) de um livro do Schopenhauer, filósofo alemão conhecido pelo seu pessimismo e pelas suas obras sobre a Vontade (sua principal obra é "O Mundo Como Vontade e Representação").

O pensamento principal de Schopenhauer, diz respeito ao tédio. Depois de uma não-existência de milhões de anos nós nascemos e a partir desse momento estamos sempre desejando alguma coisa. Quando atingimos noss objetivo, rapidamente nos entediamos e desejamos uma outra coisa. Esse ciclo segue incessantamente até que morremos, botando outros milhões de anos na nossa frente.

A questão, para o filósofo, é que "a existência em si mesma não tem valor, visto que o tédio é meramente o sentimento do vazio da existência". Para ele, o passado não é nada, pois não existe mais, então existe tão pouco quanto algo que jamais existiu. Da mesma forma, o futuro também não existe. Tudo que há é o presente, e apenas por isso este já deve ser mais valorizado que o passado ou o futuro. Mas, claro, isso dura apenas um instante, e o que existira, no próximo momento já não existe mais. "Cada noite nos empobrece, dia a dia".

Assim, o trecho que eu quis colocar aqui, que por coincidência se relaciona intimamente com o meu último post, sobre a ilusão do sentimento de nostalgia:



"As cenas de nossa vida são como imagens em um mosaico tosco; vistas de perto, não produzem efeitos – devem ser vistas à distância para ser possível discernir sua beleza. Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida – isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!

Novamente, há a insaciabilidade de cada vontade individual; toda vez que é satisfeita um novo desejo é engendrado, e não há fim para seus desejos eternamente insaciáveis.

Isso acontece porque a Vontade, tomada em si mesma, é a soberana de todos os mundos: como tudo lhe pertence, não se satisfaz com uma parcela de qualquer coisa, mas apenas como o todo, o qual, entretanto, é infinito. Devemos elevar nossa compaixão quando consideramos quão minúscula a Vontade – essa soberana do mundo – torna-se quando toma a forma de um indivíduo; normalmente apenas o que basta para manter o corpo. Por isso o homem é tão miserável."


O ensaio inteiro (não é muito grande) pode ser lido aqui.


Vou botar apenas mais alguns trechos, que me chamaram a atenção:


"O que
foi não mais existe; existe exatamente tão pouco quanto aquilo que nunca foi. Mas tudo que existe, no próximo momento, já foi. Conseqüentemente, algo pertencente ao presente, independentemente de quão fútil possa ser, é superior a algo importante pertencente ao passado; isso porque o primeiro é uma realidade, e está para o último como algo está para nada."

"Reflexões com a natureza das acima podem, de fato, nos levar a estabelecer a crença de que gozar o presente e fazer disso o propósito da vida é a maior sabedoria; visto que somente o presente é real, todo o mais é representação do pensamento. Mas tal propósito poderia também ser denominado a maior tolice, pois aquilo que, no próximo instante, não mais existe e desaparece completamente como um sonho, jamais poderá merecer um esforço sério."

"...os panteístas atrevem-se a dizer que a vida é, como dizem, “um fim-em-si”. Se nossa existência neste mundo fosse um fim-em-si, seria a mais absurda finalidade jamais determinada; mesmo nós próprios ou qualquer outro poderia tê-la imaginado."

"
A vida apresenta-se principalmente como uma tarefa, isto é, de subsistir de gagner sa vie[para ganhar a vida]. Se for cumprida, a vida torna-se um fardo, e então vem a segunda tarefa de fazer algo com aquilo que foi conquistado – a fim de espantar o tédio, que, como uma ave de rapina, paira sobre nós, pronto para atacar sempre que vê a vida livre da necessidade."

"A primeira tarefa é conquistar algo; a segunda é banir o sentimento de que algo foi conquistado, do contrário torna-se um fardo."

"Está suficientemente claro que a vida humana deve ser algum tipo de erro, com base no fato de que o homem é uma combinação de necessidades difíceis de satisfazer; ademais, se for satisfeito, tudo que obtém um estado de ausência de dor, no qual nada resta senão seu abandono ao tédio. Essa é uma prova precisa de que a existência em si mesma não tem valor, visto que o tédio é meramente o sentimento do vazio da existência. Se, por exemplo, a vida – o desejo pelo qual se constitui nosso ser – possuísse qualquer valor real e positivo, o tédio não existiria: a própria existência em si nos satisfaria, e não desejaríamos nada."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Pointless Nostalgic

Photographs lost in time are all I see
A pointless nostalgic-
That’s me



Todos os dias era filmado incessantemente. Não era uma estrela, era um homem comum.

Sua vida se desenrolava ali, naquele pequeno estabelecimento. Desde os quartos no fundo até o bar que dava para a rua, aonde trabalhava.

Todos os seus movimentos eram controlados por câmeras. Câmeras de segurança.

Tornadas câmeras de um... diário.

Todas as noites assistia as gravações de dias passados. Se espantava com quantos pequenos acontecimentos, aparentemente irrelevantes, ganhavam um novo mundo de significância em suas sessões noturnas.

Passou a gastar cada vez mais tempo diariamente assistindo as fitas, fascinado com suas novas descobertas.

O número de acontecimentos começou a diminuir. A cada dia passava mais tempo diante da televisão, vendo cada vez menos.

Até que não sobrou nada.

Apenas lembranças.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Changes

Mudar nunca é fácil.

É dar um passo em falso dentro do desconhecido.

Mesmo quando as coisas estão difíceis, mudanças não são fáceis.

Quando as coisas estão boas...é quase impossível.

Mas apesar de tudo, mudar é necessário. Mesmo quando tudo parece tranquilo é importante fazer certos questionamentos. E enfrentar o medo de destruir algo velho, para contruir algo novo. A vida é curta, e quando você menos espera ela passou e você ficou preso na ilusão do passado.

Um ode às mudanças.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Ctrl + Z

Acho incrível a influência que a tecnologia tem na nossa vida hoje em dia. É virtualmente (!) impossível passar um dia longe dela. Talvez se você pegar uma bicicleta e ir pro mato e ficar caçando coelhos pra não morrer de fome. A revolução tecnológica pela qual estamos passando é barra pesada e veio pra mudar totalmente nossas vidas.

Não que isso seja ruim. Ou bom. Sei lá. Mas eu as vezes me pego impressionado em como a nossa cabeça já está funcionando de maneira totalmente diferente. Visto ontem, estava eu no meu mais novo hobbie, a milenar arte do desenho a lápis, arte do tempo em que até uma calculadora era algo totalmente impensável (a menos que você pense em um ábaco, mas enfim). Devido a minha absoluta falta de destreza manual, borrões e erros são problemas frequentes em meu hobbie. Mas não para a minha cabeça, que nesses tensos momentos pensa instintivamente:

"Opa, borrei, vou mandar um ctrl + z aqui e tá tudo beleza!"

¬¬

Seria legal, vai. As novas inovações tecnológicas podiam ir pra esse caminho, um ctrl + z na vida real, ou então um ctrl c + ctrl v, que também seria bem útil. Bill Gates, if you may...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Tempo x Dinheiro

Nesse mundo absurdo em que vivemos a competitividade parece ser a palavra da moda e a vida anda mais difícil do que nunca. Não que tenha sido fácil alguma vez, mas não vemos mais nada caindo do céu, a não ser aviões, mas estes não deveriam cair até onde me consta e, na verdade, nem eles nós chegamos a ver, embora que tenham caído não parece restar dúvidas.

Essa vida, porém, não nos nega prazeres, e eles, apesar de tudo, estão por aí. O problema se dá nas condições impostas por esses prazeres, condições que cada dia mais estão expostas na necessidade maligna de possuírmos o velho e manjado vil metal, ainda que de metal hoje em dia tenha restado pouca coisa, mas que assim ficou conhecido, talvez por vil papel não ter a mesma força.

Podemos ignorar a dificuldade que existe hoje em dia em arranjar dinheiro. Tal fato já foi devidamente esmiuçado por muita gente, e ninguém mais aguenta tocar nesse assunto. Suponhamos, então, que não seja muito difícil e que possamos arranjar um emprego e ganhar dinheiro quando quisermos. Como dito, nada mais cai do céu, e esse dinheiro só vai pedir uma coisa de você para poder entrar no seu bolso:

Seu tempo.

Ora, mas o tempo é o nosso bem mais precioso, e uma vida sem tempo é uma idéia tanto imbecil quanto paradoxal. Se procuramos dinheiro para obtermos prazer, aonde vamos aplicar esse prazer se gastamos nosso tempo para conseguir dinheiro in the first place?

E nesse mundo insólito nós sacrificamos nosso bem mais precioso para conseguirmos alguns dias por mês e um mês de férias depois de dois anos. Não é a toa que cada dia mais pessoas estão com depressão por aí.

O mundo nunca fez muito sentido, mas a cada dia que passa faz menos.



(Esse post poderia ser trocado por apenas algumas palavras: "quero voltar a fazer aulas de tênis mas não tenho dinheiro, se eu fizesse um estágio eu teria dinheiro, mas daí eu não teria tempo".)