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quinta-feira, 27 de março de 2014

Histórias reais com ótimos atores, anyone?

Após um breve hiato, volto para falar dos filmes que eu vi no cinema, antes que a fila aumente muito! Não que eu tenha a falar muito deles, na verdade, talvez por isso venha enrolando. Normalmente quando eu já tenho coisas na cabeça pra falar eu venho seco pra escrever aqui. Com esses, entretanto...

Não que sejam ruins, muito pelo contrário. Mas são dois filmes que são carregados nas costas pelos seus atores principais, e é difícil falar muito mais do que isso.

Estou falando, é claro, de Philomena e Clube de Compras Dallas.

Philomena conta a história real de uma mãe (Judi Dench) em busca de seu filho, que foi entregue à adoção meio que à força quando a mulher, ainda jovem e grávida, passou a trabalhar em um convento em busca de abrigo. Para isso, ela tem a ajuda de um jornalista político (Steeve Coogan) com a carreira em crise, tendo que se voltar a "human interest stories".

E o filme, digamos assim, é exatamente isso. Não fosse a atuação estupenda da Judi Dench dificilmente receberia a atenção que recebeu. O roteiro e a direção são muito corretos, conseguindo uma agradável mistura de drama e comédia, mas é a Judi (e o Steve também, para sermos justos) que leva. o filme nas costas. Sua interpretação da humilde e aparentemente ingênua Philomena é magistral.



O filme ainda faz um breve estudo sobre a religião católica, principalmente com a idéia de perdão. Afinal, aos olhos da igreja, a mulher pecara ao ter engravidado de maneira não, digamos, tradicional. Aonde cabe o seu perdão? Deveria haver algum? Vindo de quem? E da mesma forma, o que Philomena deveria sentir ao ver que seu filho foi tirado de seus braços? Não teria ela também que aprender a perdoar? São em torno dessas perguntas que o filme se desenvolve, e é bem interessante como as coisas se desenrolam.



Clube de Compras Dallas conta a história (também real) de Ron Woodroof, um estereótipo de sulista que se vê contaminado com o vírus da AIDS em meados da década de 80, quando a doença ainda era novidade para muita gente. Diagnosticado inicialmente com apenas 30 dias de vida, Ron começa a procurar métodos alternativos para se manter vivo, o que acaba por criar uma pequena revolução.

O filme tem seu grande mérito na construção do personagem principal, que é interpretado com maestria por Matthew McConaughey. Começamos por ver um homem extremamente preconceituoso e agressivo, que devido as circunstâncias é obrigado a rever seus conceitos e mudar suas prioridades. Assim, é admirável a segurança e o controle com as quais o Matthew conduz seu complexo personagem. As mudanças são totalmente sutis e graduais, fazendo total sentido para o espectador - ajudando nisso também a direção firme e competente de Jean-Marc Vallée.



E a grande mudança pela qual passa o personagem de McConaughey é facilmente vista na relação com o personagem de Jared Leto, um travesti também contaminado. É fácil perceber que o personagem é criado justamente para fazer o eixo em volta do qual Ron faz sua trajetória. Se no começo vemos uma grande rejeição e agressividade, aos poucos vamos vendo uma relação de negócios florescendo entre os dois até que uma verdadeira amizade é criada - e nesse sentido é chave o momento onde, ao ver seu amigo travesti sendo hostilizado por um antigo amigo seu, Ron rapidamente decide tomar o lado de seu novo amigo.

E o filme também toca em uma questão bem importante, sobre as grandes companhias de medicamentos e suas estratégias para enfiar produtos nem tão eficientes assim no mercado. E se tratando de uma história real, é assustador como nem sempre podemos confiar na entidade que mais temos o costume de confiar, que é a medicina.

Dr. Eve Saks: We can make you comfortable.
Ron Woodroof: What? Hook me up to the morphine drip, let me fade on out? Nah. Sorry, lady, but I prefer to die with my boots on.


1. Nebraska (Nebraska) - Alexander Payne - 96 2. O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) - Martin Scorsese - 95  
3. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 89
4. Uma Aventura Lego (The Lego Movie) - Phil Lord, Christopher Miller - 89

5. Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club) - Jean-Marc Valée - 82
6. Trapaça (American Hustle) - David O. Russell - 78

7. Philomena (Philomena) - Stephen Frears - 75
8. Ninfomaníaca (Nymphomaniac) - Lars Von Trier - 74  
9. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 64
10. Confissões de Adolescente - Chris D'Amato, Daniel Filho - 62 
11. Jack Ryan: Operação Sombra (Jack Ryan: Shadow Recruit) - Kenneth Branagh - 62
12. Caçadores de Obras-Primas (Monuments Men) - George Clooney - 34
13. Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones) - Christopher Landon - 25

14. O Herdeiro do Diabo (Devil's Due) - Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett - 22

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nebraska

- Does he have Alzheimer's?
- No, he just believes what people tell him.
- That's too bad.


De tempos em tempos aparece um filme que se mostra tão delicado em sua composição e em seu tema que é impossível não se sensibilizar e entrar totalmente na história. Nebraska é um desses filmes. A nova produção de Alexander Payne tem a cara dos filmes dele: leve, mas ao mesmo tempo profundo, melancólico, reflexivo e acima de tudo, bonito. Mas se em alguns outros filmes alguma coisa ou outra parecesse meio off, em Nebraska tudo se encaixa perfeitamente, fazendo, na minha opinião, o melhor filme de 2013.

Fotografado em um preto e branco insosso, Nebraska não trata essa fotografia como um mero recurso estilístico. O preto e branco faz parte da história, pois assistimos à jornada de um velho homem voltando à sua cidade natal e reencontrando não apenas seus velhos amigos, como as velhas paisagens e, claro, suas velhas memórias. É uma visita à small town America, onde o tempo parece não passar, e é um convite para procurarmos conhecer melhor nossos antepassados. Pois apenas conhecendo nossos antepassados podemos realmente entender nossas origens e entender assim o mundo à nossa volta.

O filme segue um velho morador de Montana, Woody Grant (Bruce Dern), que acreditando ter ganho um prêmio de um milhão de dólares, decide ir até Nebraska coletar seu dinheiro, nem que para isso tenha que ir a pé. O prêmio, no entanto, é apenas uma óbvia jogada de marketing, o que lhe é dito a todo momento por sua família. Vendo, porém, que não haveria como dissuadir seu pai, o filho David Grant (Will Forte) resolve levá-lo de carro até o distante estado, aproveitando o momento a dois para se aproximar um pouco de seu distante progenitor. Ao sofrer um pequeno acidente no caminho, eles decidem passar o fim de semana na pequena cidade rural de Hawthorne, onde Woody nasceu e cresceu e onde o resto de sua família ainda vive.


É daqueles filmes que parecem extremamente simples, mas que escondem um tanto de sutilezas em seu (magnífico) roteiro. Assim, é impossível passar pelo filme sem parar um instante que seja para pensar em o que significa ser idoso nos dias de hoje, e que tipo de vida nossos pais e avós tem. E ao nos aproximar deles e ao conhecer o contexto de suas vidas, o filme de certa forma nos ajuda a entendê-los e a superar comportamentos e atitudes que nem sempre entendemos muito bem e que nos parece estranhos, lentos e fora de contexto.

Afinal, é isso que David inconscientemente busca ao se voluntariar para levar o pai até o Nebraska. E é uma coisa engraçada: quanto mais nos aproximamos de nossos pais, avós e antepassados em geral, mais percebemos o quanto nós somos ignorantes sobre eles. Há um post em um blog que eu adoro, que fala justamente sobre isso:

"But I also used the visit (to my grandmother) as an opportunity to do something I have not done nearly enough in my life—ask her questions about our family. I don’t know you, but I can almost guarantee that you don’t ask your grandparents (or older parents) enough questions about their lives and the lives of their parents. We’re all incredibly self-absorbed, and in being so, we forget to care about the context of the lives we’re so immersed in. We can use google to learn anything we want about world history and our country’s history, but our own personal history—which we really should know quite well—can only be accessed by asking questions."

Isso é uma grande verdade, pelo menos para a maioria de nós. Eu, por exemplo, devo saber apenas os nomes dos meus bisavôs. Sei pouquíssimas coisas além disso. E mesmo meus avós, que tiveram um grande papel na minha criação, tem muita coisa que eu não faço idéia. Raios, deve ter muita coisa que eu não sei até sobre a minha mãe. E todas essas pessoas muito provavelmente tiveram vidas interessantíssimas, ricas e cheias de particularidades e muito do que elas foram ou fizeram meio que definem o contexto onde eu fui criado e, dessa forma, definem o que eu sou e o que eu faço hoje.


Assim, é lindo ver a forma como pai e filho vão passando por várias situações que, ainda que causem conflito em muitas das vezes, tem o resultado inevitável de aproximar os dois. E não apenas os dois, já que também acabamos por conviver com a mãe de David, Kate Grant (June Squibb) e seu irmão bem sucedido Ross Grant (Bob Odenkirk - sim, o Saul). E ao nos aproximar dos personagens, passamos a entendê-los em toda sua complexidade. Assim, se Woody no começo do filme nos parece apenas um velho alcoólatra, teimoso e insensível, ao longo do filme vamos entendendo melhor o contexto de sua vida e suas motivações que nem sempre são tão mesquinhas quanto as vezes parecem ser. Na verdade descobrimos estarmos diante de um homem generoso e até muitas vezes ingênuo, mas que por n motivos acaba se perdendo em sua amargura - muito disso vindo de sua relação com o álcool, mesmo essa relação sendo relativizada ao entendermos que sua cidade natal orbita em volta de bares e que "todos ali começam muito cedo".


E eu tenho até dificuldade em começar a falar sobre as atuações. Poucas vezes eu vi atores criando personagens tão reais e tangíveis. O Woody de Bruce Dern é construído com tanto cuidado e autenticidade que é difícil dizer que estamos vendo um filme e não algo real. Sua atuação é fundamental para estabelecermos a profundidade do personagem. Assim, mesmo nos momentos em que Woody é mais irritante, vemos ali um traço de desconforto, como se aquela pessoa incômoda sentisse uma ponta de remorso por se mostrar assim. Por outro lado temos o contraponto da falante Kate, que nos ajuda a imaginar perfeitamente a relação do casal. Jane Squibb também faz um trabalho fantástico aqui: sua Kate é impressionantemente real. Acredito que todos nós podemos ver a Kate em uma tia ou avó, mais distante ou mais próxima que seja. E seu senso de humor, aaah...

...é demais. Porque o filme não se contenta em apenas criar reflexões profundas sobre a vida, o universo e tudo mais. Ele é engraçado pra caramba. Ele tem um humor fino, irônico, muitas vezes sutil, que levou o cinema inteiro às gargalhadas diversas vezes. Trabalhando nisso não temos apenas a (já excelente) dinâmica entre os pais e os dois filhos, mas temos toda uma caricatura de personagens (o irmão de Woody e o resto da família), responsáveis por cenas divertidíssimas.


Alexander Payne conseguiu fazer nesse filme o que tentou em Os Descendentes e não conseguiu. Um filme sensível e reflexivo e, surpreendemente, divertido. Eu não era um grande fã dos trabalhos dele, mas ele ganhou o meu respeito (não que ele ligue pro respeito de um pseudo cinéfilo cujo blog ninguém lê, óbvio). Nebraska tem, definitivamente, a minha torcida na disputa do Oscar.

(A não ser que 12 Anos de Escravidão me surpreenda muuuito, claro.)


1. Nebraska (Nebraska) - Alexander Payne - 10,0
2. O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) - Martin Scorsese - 10,0  
3. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
4. Uma Aventura Lego (The Lego Movie) - Phil Lord, Christopher Miller - 9,0
5. Trapaça (American Hustle) - David O. Russell - 9,0  
6. Ninfomaníaca (Nymphomaniac) - Lars Von Trier - 8,5  
7. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5
8. Confissões de Adolescente - Chris D'Amato, Daniel Filho - 6,0  
9. Jack Ryan: Operação Sombra (Jack Ryan: Shadow Recruit) - Kenneth Branagh - 6,0
10. Caçadores de Obras-Primas (Monuments Men) - George Clooney - 4,0
11. O Herdeiro do Diabo (Devil's Due) - Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett - 2,5  
12. Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones) - Christopher Landon - 2,0













sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Trapaceando Expectativas

Ainda no clima de expectativas, o filme que eu mais esperava ver nesse começo de ano era Trapaça. Eu venho prestado atenção nos últimos trabalhos do diretor David O. Russell, que após uma sequência de trabalhos de pouca expressão (não vi nenhum deles) no final da década de 90 e começo dos anos 2000, vem com uma carreira ascendente com dois filmes excelentes desde 2010: O Vencedor e O Lado Bom da Vida.

  Se O Vencedor trazia Christian Bale e Amy Adams com os papéis princiais e O Lado Bom da Vida Bradley Cooper e Jennifer Lawrence (todos sendo indicados ao Oscar nessa brincadeira e com Bale e Lawrence ganhando), o novo trabalho de Russell prometia muito ao colocar os quatro atores frente a frente. Trazia ainda o duas vezes indicado ao Oscar Jeremy Renner junto com talvez o meu comediante favorito, Louie C.K. e um marketing forte, com diversos pôsteres divertidos, além de um dos trailers mais legais que eu já vi, que não diz nada sobre o filme mas é alucinantemente divertido.

Por tudo isso, eu acabei me frustrando um pouco quando finalmente vi o filme. Não achei ruim, mas sai do cinema extremamente decepcionado. Mas aí parei pra pensar, e desde então eu cheguei a conclusão de que estou sendo injusto com o filme. Trapaça é um filme muito bom. Tem seus problemas, e na minha opinião está um pouco abaixo tanto de O Lado Bom da Vida quanto de O Vencedor, mas é sim um filme muito bom.


O filme conta a história de um casal de trapaçeadores (Bale e Adams) que acabam sendo forçados a trabalhar com um agente do FBI insano (Cooper) tentando flagrar políticos (em especial o interpretado por Renner) corruptos e mafiosos em atividades ilícitas. Temos ainda a mulher do personagem interpretado por Bale (Lawrence), louca e imprevisível e o chefe do personagem de cooper, interpretado pelo Louie C.K., que sofre nas mãos de seu ambicioso subordinado.

  Tem bastante gente falando que o filme é uma grande homenagem ao Scorsese, e meio que é mesmo. Se o tema, as constantes narrações em off e uma trilha sonora marcante deixavam alguma dúvida, a ponta do Robert De Niro lá pelo meios do filme trata de resolvê-las. O que mais chama atenção no filme, porém, é o design de produção, extremamente caricato, estilizado e artificial, brincando com a própria idéia do filme de trapaças e disfarces.

E os personagens são divertidíssimos. Tanto o trapaceiro interpretado por Bale quanto o investigador interpretado por Cooper não se limitam a ser apenas uma caricatura, mas são personagens complexos e tridimensionais. Amy Adams também constrói uma personagem fantástica, que nunca sabemos o que está realmente pensando e o quanto de suas ações e demonstrações de sentimentos são genuínas ou forjadas - afinal, desde o começo sabemos o quanto ela é inteligente e trapaçeira. Jeremy Renner surge como o político bem intencionado que acaba sendo pego pelo agente de Cooper, que por sua vez ao longo do filme acaba se mostrando mais preocupado com sua carreira do que com seu ideal de justiça.

O ponto que destoa um pouco é a mulher interpretada por Jennifer Lawrence, que parece extremamente deslocada no papel. Não que ela esteja atuando mal - não está - mas, como eu li em algum lugar, ela foi extremamente mal escolhida para o papel, que pedia uma mulher mais velha. Ver ela atuando nesse filme com aquela cara de criança dava a impressão de ver uma menina brincando de interpretar uma mulher.

Então sim, eu gostei muito do filme. Mas ficou faltando alguma coisa que eu não sei bem o quê. O filme não me emocionou de maneira nenhuma e o final é um pouco previsível, ainda que seja divertido e dialogue bem com a máxima que transcorre o filme inteiro "people believe what they want to believe"

Vale pela diversão, pelas risadas e pelas atuações.

1. O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) - Martin Scorsese - 10,0  
2. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
3. Uma Aventura Lego (The Lego Movie) - Phil Lord, Christopher Miller - 9,0
4. Trapaça (American Hustle) - David O. Russell - 9,0  
5. Ninfomaníaca (Nymphomaniac) - Lars Von Trier - 8,5  
6. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5  
7. Confissões de Adolescente - Chris D'Amato, Daniel Filho - 6,0  
8. Jack Ryan: Operação Sombra (Jack Ryan: Shadow Recruit) - Kenneth Branagh - 6,0
9. O Herdeiro do Diabo (Devil's Due) - Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett - 2,5    
10. Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones) - Christopher Landon - 2,0