segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Massacre Bowl XLVIII

Poucas coisas me deixam mais irritado do que coisas que prometem ser fantásticas e acabam sendo patéticas.


Eu tinha grandes expectativas pra esse Super Bowl. Não esperava de maneira nenhuma que fosse tão alucinantemente bom quanto o do ano passado - não só pela vitória dos Ravens - mas esperava um jogão, disputado até o último minuto e decidido nos detalhes.

O Super Bowl XLVIII não foi decidido nos detalhes. Ou foi: o pequeno detalhe de que o Denver errou tudo que tentou e o pequeno detalhes que o Seattle fez uma partida virtualmente perfeita. Foi um massacre. 

Um massacre que já começou com um dos começos de Super Bowl mais bizarros da história, com um snap fora de hora e um safety para os Seahawks. Na hora eu pensei "putz, isso vai desestabilizar os Broncos". Há quem diga que desestabilizou mesmo, mas depois de tudo que eles apanharam durante o jogo inteiro eu considero uma falta de respeito com o Seahawks dizer que uma vitória desse calibre foi fruto de um... detalhe.

O time do Seahawks é um absurdo. Eu canto eles como favoritos pro Super Bowl desde as primeiras rodadas, e não porque "ho ho eu sou foda e manjo pra caralho dos paranauê", mas porque era uma parada quase óbvia - todos os analistas falavam a mesma coisa e a campanha do time deixava pouca margem pra dúvida. Mas nem precisava de analistas e campanha, era só ver o time jogando que você ficava assombrado.

E é óbvio que a defesa tem que ser exaltada. Eu acompanho o futebol americano há relativamente pouco tempo (uns 3 anos), mas eu nunca vi uma secundária como aquela (deixando os nomes idiotas de lado). Agressiva, veloz, forte, inteligente. É uma pena que o Sherman seja um babaca, mas não há muito que se possa falar mal dele dentro de campo.

Mas o meu jogador preferido no time de Seattle é, duh, o quarterback. Do alto de seus 1,80m (eu me sinto um anão quando chamam ele de baixinho, mas é a vida), o Russel Wilson demonstra uma maturidade dentro e fora de campo extremamente incomum para um jogador apenas em sua segunda temporada. Ele, obviamente, tem ótimos números (apenas 9 interceptações), mas não são os números que o destacam. Ele não fez um temporada regular como a do Manning, nem playoff com números absurdos como o Flacco ano passado: é o seu equilíbrio, a sua calma, a sua serenidade que me atraem nele. Ele tem um bom passe, ele se mexe bem, ele sabe correr com a bola. E eu nunca vi ele se desesperar. Erra, sim, mas como todos erram, as vezes por falha, as vezes por azar, mas ele parece tratar isso com a maior naturalidade do mundo. Você não vê ele psicologicamente afetado por um erro, você não vê ele jogando a bola pra qualquer lado quando a linha defensiva chega perto dele.

A defesa é a melhor da NFL - fato. Mas o Seahawks não teria chegado aonde chegou sem o Wilson.

E os Broncos? Eu torcia pra eles. Sou um grande fã do Peyton Manning, acho ele um cara fantástico e talvez o melhor quarterback que eu já vi jogar. Mas ontem as coisas simplesmente não funcionaram em momento nenhum. Cada first down (foram poucos) era uma luta desesperada, sempre ficava a dúvida se haviam passado ou não da linha imaginária. E as (pouquíssimas) jogadas explosivas eram instantaneamente canceladas pelo Seattle, com fumbles forçados e interceptações. O time pareceu sim sofrer com o baque do começo desastroso, mas isso é muito pouco pra explicar o fato de todo mundo ter jogado mal - jogadores e técnicos.

E, bem, por mais que eu adore o Manning, não dá pra manipular os fatos e dizer que ele não dá uma arregada em momentos decisivos. São fatos. Eu fui checar alguns números: ele tem mais derrotas que vitórias em playoffs (11-12) e em Super Bowls (1-2). Vale lembrar que ano passado, embora o lance mais marcante e decisivo tenha sido a falha do safety no touchdown do Jacoby Jones (passe lindo do Flacco :D), o lance que deu a chance pros Ravens chutarem um field goal na prorrogação foi uma interceptação do Peyton.

Os irmãos podiam se juntar: o Peyton joga a temporada regular e o Eli joga os playoffs. Não ia ter pra ninguém.


A AFC tem muito o que evoluir se quiser voltar a mandar um representante vencedor para os Playoffs. 
 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A Beleza de Lórien

Minha capa de livro preferida
Eu sou um enorme fã do Tolkien. Nenhum autor conseguiu criar um mundo como o dele e, mais importante, te inserir dentro dele de maneira tão viva.

Li O Senhor dos Anéis pela primeira vez em 2002, pouco antes do lançamento do primeiro filme, e já o reli algumas vezes desde então. Estou relendo-o mais uma vez atualmente, e eu sempre fico fascinado com algum detalhe que me passou despercebido em outras leituras.

Muita gente reclama que o Tolkien era excessivamente descritivo e que os seus livros são muito cansativos de se ler. Embora eu entenda o que essas pessoas querem dizer, eu não vejo isso como algo negativo - e na verdade nem é esse exagero todo. De qualquer forma, eu acabei de chegar na parte onde a comitiva chega em Lórien. Todos entram de olhos vendados (em respeito ao Gimli). No momento em que lhes é permitido retirar as vendas, Frodo tem a oportunidade de observar a linda floresta de Lórien pela primeira vez ao seu redor, e o Tolkien não poderia descrever o que ele vê de maneira mais linda. Transcrevo, portanto:

"Os outros se jogaram sobre a relva cheirosa, mas Frodo continuou de pé por uns momentos, ainda pasmo e admirado. Tinha a impressão de ter atravessado uma janela alta que dava para um mundo desaparecido. Havia uma luz sobre esse mundo que não podia ser descrita na língua dele. Tudo o que via parecia harmonioso, mas as formas pareciam novas, como se tivesse sido concebidas e desenhadas no mesmo momento em que lhe tiraram a venda dos olhos, e ao mesmo tempo antigas, como se tivessem existido desde sempre. Frodo não viu cores diferentes das que conhecia, dourado e branco e azul e verde, mas eram novas e pungentes, como se naquele mesmo momento as tivesse percebido pela primeira vez, dando-lhes nomes novos e maravilhosos. Naquela região, no inverno, ninguém podia sentir saudades do verão ou da primavera. Não se podia ver qualquer defeito ou doença ou deformidade em cada uma das coisas que cresciam sobre a terra. Não haviam manchas na terra de Lórien."

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Mania de Ninfos

Eu não sou um grande conhecedor dos trabalhos do Lars Von Trier. Só havia visto Dogville, que eu achei fantástico (mas isso faz aaanos e eu era bem mais prepotente pra filmes do que sou hoje - e eu ainda sou mais do que gostaria). Mas mesmo assim sempre tive curiosidade de assistir aos filmes dele. Todo mundo fala que eles são super chocantes e polêmicos - e quem não gosta de uma boa polêmica?

Fui ver esse Ninfomaníaca com essa expectativa (acentuada, claro, por toda a propaganda feita para o filme). E qual não foi a minha surpresa ao verificar que sim, é um tema um pouco delicado e sim, tem muitas cenas de sexo explícito, mas, ao contrário do que se poderia imaginar, o filme não é nem um pouco chocante.


Não fossem as constantes cenas de nudez e de sexo, poderiamos estar vendo um filme "normal" sobre um tema interessante, dirigido com maestria por um simples diretor dinamarquês. Mas as tais cenas não ficam deslocadas no filme - elas ajudam o espectador a se sentir dentro do filme, sentindo todos os sentimentos dos protagonistas. Além disso, o diretor, durante todo o filme, usa diversos artifícios como gráficos, somas, imagens explicativas, dando um tom de, digamos, sala de aula. Assim, as cenas que poderiam ser consideradas chocantes perdem um pouco do seu impacto e soando como... bem, como algo que você poderia ver em um livro de ciências.


O filme conta a história da uma mulher viciada em sexo (duh) que é acolhida por um senhor e, a partir daí, passa a contar a história de sua vida para ele. A estrutura do filme é muito interessante: ele é todo dividido em capítulos, e cada capítulo se desenvolve a partir de uma conversa aleatória entre os dois (por exemplo, o primeiro é desenvolvido a partir de uma conversa sobre pescaria, estabelecendo assim um paralelo entre o hobbie do senhor com o hobbie de "pescar homens" da mulher).



Existem capítulos mais ou menos interessantes, alguns surpreendentemente engraçados (como o que conta com a participação da Uma Thurman) e alguns não tão bons. Mas em geral o filme é um ótimo estudo sobre o tema e consegue entreter ao mesmo tempo que te faz pensar.


1. O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) - Martin Scorsese - 10,0
2. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
3. Ninfomaníaca (Nymphomaniac) - Lars Von Trier - 8,5
4. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5
5. Confissões de Adolescente - Chris D'Amato, Daniel Filho - 6,0
6. O Herdeiro do Diabo (Devil's Due) - Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett - 2,5
7. Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones) - Christopher Landon - 2,0

Wolfie! Wolfie!

Eu sou um grande fã dos trabalhos do Scorsese. É um daqueles diretores que você reconhece rapidamente ao ver apenas algumas cenas de um filme. Eu gosto disso. Se no último filme dele, Hugo, isso tenha ficado bastante de lado (é talvez o filme mais diferente do diretor), o seu estilo volta com tudo nesse O Lobo de Wall Street, no melhor estilo Os Bons Companheiros.

Os Bons Companheiros que, por acaso, é o meu filme preferido dele (não só dele, mas um dos meus preferidos da vida). E eu não poderia ficar mais satisfeito com a realização de que O Lobo de Wall Street foi concebido exatamente da mesma maneira, ainda que em momento nenhum soe como uma cópia. Está tudo lá, as drogas, o crime, o sexo, o narrador-personagem, o arco narrativo início-evolução-auge-queda-recuperação, a trilha sonora marcante, etc.

O Lobo de Wall Street, entretanto, se destaca por ser talvez o filme menos pretensioso da carreira do Scorsese. A impressão que se tem é de que o diretor quis apenas se divertir e fazer um filme divertido, sem nenhuma preocupação com premiações ou de passar uma mensagem ou qualquer coisa assim e isso não é tão comum em sua carreira.

O filme conta a história verídica (ainda que com alguns - óbvios - exageros) do ex-corretor Jordan Belfort, que nos 80 chegou ao topo de Wall Street ao manipular o sistema financeiro e arruinar muitas famílias - nem sempre de maneira legal. Em meio à muita droga, putaria e bizarrices, podemos ver desde o começo da carreira de Jordan, um tímido e ambicioso corretor até seus exageros mais bizarros, sua criminalização e sua inevitável queda.



Mas o filme não tenta passar nenhuma lição de moral nessa história, e isso foi um grande acerto, pois deixou o filme mais leve e agradável. Tivesse dado um tom mais sério, Scorsese teria feito um filme carregado e arrastado. Mas a energia quase juvenil que o diretor emprega durante todo o longa faz com que quase não se sinta suas 3h de duração. Embora o protagonista seja capaz das atitudes mais absurdas, o Scorsese deixa a cargo do espectador tirar suas próprias conclusões.


E não há como não falar do filme sem mencionar as atuações, especialmente - óbvio - a de Leonardo DiCaprio (também produtor do filme junto com Scorsese), que aparece em virtualmente todas as cenas do filme. Com três indicações ao Oscar antes de O Lobo de Wall Street, muita gente fica indignada por ele nunca ter ganho. Eu não sou uma delas. Gosto das atuações dele, mas eu não teria premiado nenhuma de suas atuações anteriores - sempre achei ele um pouco exagerado demais.

A coisa mudou um pouco pra mim aqui. Essa, na minha opinião, é de longe a melhor atuação do Leo em toda sua carreira, e justamente em um filme onde a carga dramática é menor. Aparentemente, seus exageros funcionam muito melhor para a comédia do que para o drama. Aqui ele simplesmente dá vida a um personagem fascinante.

E o elenco de suporte não fica atrás, desde a breve - e genial - ponta de Matthew McConaughey até o hilário Jonah Hill e a linda Margot Robbie. Na verdade, sem tamanho talento em seu elenco, o filme jamais faria o sucesso que faz. E o uso da trilha sonora - ah, como o Scorsese faz isso bem. É capaz de transformar uma cena simples em algo sensacional: cito como exemplo óbvio a invasão da empresa de Jordan pelo FBI ao som de Mrs. Robinson. Simplesmente genial.

Eu gostei tanto do filme que já fui ver duas vezes no cinema (e o ingresso não tá barato viu). Não sei se chega a ser melhor que Os Bons Companheiros, mas fazia um bom tempo que eu não ria tanto no cinema. É o entretenimento em seu ponto máximo.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Chatices Paranormais

Embora reconheça que existam títulos fantásticos aqui e ali, eu não sou o maior dos fãs de filmes de terror. Frequentemente, porém, sou arrastado para vê-los no cinema. Não que me incomode, muitos são até engraçados de tão ruins, e volta e meia sou surpreendido com alguma coisa legal (o ótimo Insidious é um bom exemplo, tanto a primeira parte quanto a segunda).

Ainda assim, na maior parte das vezes o filme é simplesmente ruim e feito nas coxas. Esse ano eu já vi dois, um pior do que o outro. Ainda mais agora que as produtoras descobriram que fazer filmes no estilo "found footage" sai MUITO mais barato e, normalmente, tem um retorno financeiro idêntico a se fosse filmado de maneira tradicional.

Para não gastar muito tempo falando dessas coisas então, breves palavras sobre cada um dos dois:

Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal:

Embora eu tenha achado uma merda na primeira vez que eu vi, eu realmente gosto do primeiro Atividade Paranormal hoje em dia. Na verdade nem tanto do filme em si, mas da idéia por trás do filme e de algumas cenas específicas que são verdadeiramente aterrorizantes - e de uma maneira psicológica, não de susto.

Desde então a idéia já vem se perdendo totalmente, e cada novo filme se parece uma sombra pálida do primeiro. Esse Marcados Pelo Mal, quinto ou sexto da franquia (eu sinceramente perdi a conta), leva a franquia ao seu ponto baixo: história pouco interessante, sustos forçados e poucas cenas que valham a pena. E principalmente, não faz o menor sentido a história ser no estilo "found footage"! A justificativa de "ganhamos uma câmera animal e gostamos de ficar filmando nosso dia a dia" já é fraca por si só, mas fica LONGE de conseguir justificar porque diabos eles não largam a câmera nos momentos mais tensos. Chega ao ponto de termos gângsteres tendo suas ações criminosas filmadas sem achar nada de errado com isso! "Ah, vou invadir essa casa aqui, mas pode filmar, sem problemas!".

Sim, isso me irritou muito.

De resto, não há muito o que dizer. O filme tem umas duas cenas legais, mas que não valem o sacrifício de assisti-lo inteiro. 


O Herdeiro do Diabo:


Esse filme podia muito bem entrar no bololô e se chamar Atividade Paranormal: O Herdeiro do Diabo. Pois novamente, é mais do mesmo, embora aqui não estejamos falando de demônios mas sim do anticristo. Mas lá está ela: a maldita câmera de mão filmada pelos personagens.

O filme, na verdade, tinha até algum potencial se não houvesse sido filmado nesse estilo (e se algumas idéias tivesse sido melhor exploradas). Mas novamente, não existe nenhum motivo para os personagens manterem a maldita câmera ligada, e a câmera estando sempre com os personagens limita muito o impacto que algumas cenas causam. Grande parte das cenas de emoção (digamos assim) são totalmente escuras e caóticas, como se deixar tudo tremendo e com sons de gritaria fosse suficiente para tornar o filme assustador (dica: não é).

Ele tenta ser uma mistura de O Bebê de Rosemary e Atividade Paranormal, mas é uma pena que ele pegue as piores partes dos dois filmes.


Direto pro final da lista então /o/


1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
2. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5
3. Confissões de Adolescente - Chris D'Amato, Daniel Filho - 6,0
4. O Herdeiro do Diabo (Devil's Due) - 2,5
5. Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones) - 2,0

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Confissões de Adolescente

O meu ano cinematográfico está bem diversificado. Depois de uma animação da Disney e um sci-fi-que-não-é-sci-fi, vi uma comédia adolescente nacional.

Confissões de Adolescente

Eu ousei usar os termos "comédia" e "nacional" na mesma frase, mas felizmente esse filme está longe do estereótipo que temos em nosso cinema. Na verdade nem é uma coméédia, embora tenha seus momentos de risadas e seus arcos puramente humorísticos (em especial o que parodia Crepúsculo - embora bobas, estão entre as cenas mais divertidas do filme). 

O filme acompanha as desventuras de 4 irmãs adolescentes no Rio de Janeiro. Não existe uma grande trama por trás de tudo, exceto talvez a questão financeira que começa a afligir a família, mas mesmo isso é pouco explorado pelo roteiro, servindo apenas como um gatilho para as discussões entre o pai viúvo e as 4 filhas mimadas. De resto, o roteiro se prende a analisar as relações amorosas e de amizades de cada uma das irmãs.

Não que haja um problema nisso, alguns arcos são bonitinhos, outros interessantes (outros nem um nem outro). Uma coisa que me incomodou um pouco, porém, foi como o filme tenta, a todo momento, fazer os jovens se identificar com as situações, seja com o uso de expressões, seja ao exibir situações clássicas ou de diversas outras formas, mas acontece que em poucos momentos isso é feito de maneira natural e genuína. Isso também é resultado de se trabalhar com um número tão grande de jovens atores: poucos são os que se salvam e os diálogos entre eles acabam ajudando esse sentimento de forçação de barra. O filme peca também por, aqui e ali, se deixar cair em velhos clichês de filmes do gênero, como a loira que só liga pra popularidade a qualquer custo. Vá lá que tem muita gente escrota na escola, mas é tipo os adolescentes de Carrie: tem coisas que simplesmente não existem.

De certa maneira, o filme me lembrou outro filme nacional sobre a adolescência, As Melhores Coisas do Mundo. Quem viu os dois consegue perceber bem o que eu estou falando. No Melhores Coisas as situações soam totalmente naturais e os atores estão tão imersos na história que tudo parece estar realmente acontecendo, não parecendo estar deslocadas da realidade como em Confissões de Adolescente.

Ainda assim, tem situações que são muito bem exploradas e divertidas, e o filme não parece ter medo de falar sobre temas delicados, como o aborto. Mesmo com as falhas, eu gostei bastante do filme.

Dica: os créditos finais são excelentes

1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
2. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5
3. Confissões de Adolescente - Chris D'Amato, Daniel Filho - 6,0

1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
2. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5 - See more at: http://liamdevlin.blogspot.com.br/2014/01/enders-game-prefiro-ler-o-livro.html#sthash.TG5vQtI5.dpuf

Ender's Game - Prefiro Ler o Livro

Eu tinha consciência que manter a minha resolução seria difícil. Mas não sabia que eu seria brindado logo de cara com uma avalanche de filmes vistos no cinema somados com várias viagens consecutivas (o que significa pouco tempo para escrever).

Resultado: já estou com 5 filmes na fila para serem comentados aqui no blog.

Como hoje é meu último dia de férias e meu tempo para escrever deve diminuir cada vez mais, preciso me livrar dessa fila logo. Sem mais delongas então, o primeiro:

Ender's Game - O Jogo do Exterminador

Indiana Solo em mais uma atuação no piloto automático
Como um fã de ficção científica eu já possuía uma pré disposição para gostar desse filme. E eu realmente gostei, mas não por causa disso. Acontece que, deep down, não é exatamente um filme de ficção científica. O filme é todo disfarçado de sci-fi, mas o seu core está bem longe disso. Trata-se apenas de um filme que conta a história de um garoto inteligentíssimo em um futuro distante que é treinado pra ser o líder de um exército. O fato de boa parte desse treinamento ser feito no espaço e de que esse exército estará lidando com formigas espaciais são meros detalhes para a história.

Então o que realmente é fascinante na história é observar como esse garoto vai sendo testado, e como ele vai desenvolvendo estratégias diferentes frente à desafios diferentes, em especial os desafios que são criados por ele ser apenas uma criança e ninguém querer se submeter à autoridade dele. É interessante notar como o personagem não tem nenhuma pré disposição para a liderança, mas a sua inteligência e suas estratégias são tão firmes e certeiras que ele acaba por conseguir impôr sua autoridade de uma maneira ou de outra.

O filme também traz algumas discussões muito interessante, até com um toque de crítica a uma certa potência ocidental, sobre a moralidade de se usar o ataque como mecanismo supremo de defesa. Ao estabelecer um paralelo dessa estratégia nas relações internacionais com o momento onde, ao se defender de um ataque de um bully, o garoto não apenas se defende mas ataca e machuca o adversário (segundo ele próprio "para evitar futuros ataques"), o filme faz um estudo psicológico trabalhado por muitos teóricos das RIs, ou seja, a transposição da psicologia individual para as relações entre os Estados.

Mas o filme está (bem) longe de ser perfeito. Na verdade, todos esses pontos legais que eu citei acima são porcamente desenvolvidos. O filme todo é muito corrido e tudo acontece muito depressa. Nesse sentido, o filme funciona muito mais como um trailer para o livro (sim, há um livro) do que como um filme em si. Meu pensamento em boa parte do filme era "puxa, isso parece legal, aposto que no livro deve ser bem mais desenvolvido e foda".

No mais, o filme traz algumas situações totalmente irreais que incomodam um pouco (tipo, duh, botarem as forças armadas da Terra nas mãos de uma criança). Novamente, eu acredito que no livro essas situações devem ser explicadas de uma maneira mais convincente, mas no filme tem muita coisa que fica solta.

Mas é um filme que diverte e faz você pensar em algumas coisas, o que já é mais do que a grande maioria de filmes por aí.

1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - Chris Buck, Jennifer Lee - 9,5
2. Ender's Game - O Jogo do Exterminador (Ender's Game) - Gavin Hood - 6,5
1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - 9,5
1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - 9,5


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Minha Resolução para esse Blog em 2014

Nessas últimas semanas eu flertei algumas vezes com a idéia de fazer um post com uma breve respectiva de 2013 e com algumas famigeradas resoluções para 2014. Por algum motivo, não o fiz - provavelmente o mesmo motivo que deixa esse blog em estado vegetativo por tanto tempo, ou seja, a procrastinação interminável.

Mas estou lutando contra isso, e embora tenha perdido totalmente o timing e o saco de fazer esse post, me veio uma idéia de uma resolução para o ano de 2014 que talvez seja interessante, ao mesmo tempo em que ajuda a manter esse blog vivo. É a seguinte:

"Em 2014, farei um breve comentário no blog sobre cada filme que eu ver no cinema."

Não uma crítica, veja bem, não espero tanto de mim mesmo. Mas um breve comentário, um parecer pessoal positivo ou negativo, algumas impressões aleatórias... sei que mesmo isso é um desafio enorme, mas se a resolução não for desafiadora, que graça tem?

(Já vejo isso dando totalmente errado e o blog totalmente morto novamente daqui a duas semanas, mas por enquanto vamos fingir que isso não vai acontecer :D)

Feito essa breve introdução, vamos ao primeiro filme visto nos cinemas em 2014!


E o meu ano cinematográfico começou com o pé direito (ou esquerdo, se você for canhoto, não tenho problemas com isso)! Frozen - Uma Aventura Congelante vem sendo considerado um novo clássico dos estúdios Disney e eu não poderia concordar mais (é tão bom quando um filme corresponde às expectativas!).

A animação é belíssima, é impossível não ficar maravilhado com os cenários criados, as expressões dos personagens e o jogo de cores. Mas Frozen não brilha só nos aspectos técnicos - a história (baseada em uma fábula de Hans Christian Andersen) é muito bacana e cativante. Os personagens principais são muito bem desenvolvidos (é impossível não se apaixonar pela Anna) e os secundários fazem você morrer de rir (sim, não tem como não mencionar o Boneco-de-neve-cujo-sonho-é-conhecer-o-calor, Olaf).

Mas o grande mérito do filme é fugir dos clichês dos contos de fadas, clichês estes criados principalmente pela própria Disney no passado. Assim, em um tempo onde o feminismo começa a ganhar mais força, é ótimo ver um filme que dialogue com isso ao estabelecer que existem amores tão ou mais valiosos do que o amor romântico entre um homem e uma mulher. Da mesma forma, temos uma personagem principal forte e valente, que, ainda que precise da ajuda de um homem, parece ter as rédeas da situação em quase todos os momentos.

Meu último problema com o filme foi que a motivação para a história toda poderia ter sido resolvida com um pouco de diálogo. Mas acredito que essa é justamente a moral da história, lembrando que se trata de uma fábula, então está perdoado. Ah sim, e a dublagem. Não que tenha sido ruim (não foi, e o Olaf do Fábio Porchat é particularmente hilário), mas as músicas naturalmente perdem muito da força ao serem traduzidas. Minha outra resolução para 2014 é ver esse filme legendado (só em dvd, porém, não saiu legendado em nenhuma sala no Rio)!

Por enquanto é isso então. Vou adicionando os filmes em forma de lista:

1. Frozen - Uma Aventura Congelante (Frozen) - 9,5

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Temporada Regular dos Ravens

Regular, nesse caso, diz muito, já que com um recorde de 8-8 o desempenho dos Ravens nessa temporada foi exatamente isso: regular. Mas o que isso quer dizer?

Se considerarmos que estamos falando do atual campeão do Super Bowl, isso poderia querer dizer que foi uma temporada medíocre. Afinal, ficamos de fora dos playoffs, o que não acontecia desde 2007 (e foi apenas a segunda vez que um time campeão do Super Bowl não chega aos playoffs na temporada seguinte). Uma análise fria pode, portanto, deixar os torcedores dos Ravens chateados e envergonhados.

As expectativas após uma temporada vencedora são naturalmente otimistas.

Mas vamos deixar essa visão superficial um pouco de lado e analisar alguns fatos?

Vamos.

Fato nº 1. Os Ravens terminaram a vitoriosa temporada de 2012 com um time envelhecido, valorizado e - mais importante - caríssimo. Com um salary cap apertadíssimo, o time se viu obrigado a se desfazer de peças importantes que se tornavam free agents, casos de Bernard Pollard, Paul Kruger e Anquan Boldin. Outros experientes jogadores resolveram pendurar suas chuteiras, casos de Ray Lewis e Matt Birk. Os Ravens ainda perderam Ed Reed e Daniel Ellerbe (entre outros).

Resumindo, os Ravens entraram em 2013 com o time totalmente desfigurado.


Fato nº 2. Enquanto a defesa conseguiu se arranjar com as entradas do Daryl Smith, do Elvis Dumervil e do novato Matt Elam e com a volta do Lardarius Webb, o ataque ficou seriamente prejudicado sem Anquan, que sempre fora o ponto de segurança para o Flacco, tendo feito uma pós temporada fantástica em 2012. O novato Marlon Brown entrou bem no time, mas não foi sombra do que Anquan era (obviamente). O jogador que poderia ser esse go-to player para o Flacco seria o tight end Dennis Pitta, que possui uma já conhecida química com o quarterback. Eis que o que acontece? 

Pitta se machuca ainda durante os treinos e perde quase a temporada inteira.


Fato nº 3. Ainda falando do ataque, a linha ofensiva sofreu muito durante essa temporada com a aposentadoria do center Matt Birk e com a lesão do bom Osemele, embora esse tenha acontecido já no meio da temporada. Na verdade, não conseguir arrumar a linha ofensiva foi a grande falha dos Ravens esse ano. Sem seu go-to player, o Flacco inevitavelmente ia precisar de mais tempo com a bola nas mãos para procurar seus recebedores. Não foi o que aconteceu: os Ravens acabaram como o segundo time mais sacado da NFL. Atuações fraquíssimas dos tackels Michael Oher e Bryant McKinnie contribuiram muito para isso.



Fato nº 4. A linha ofensiva também se mostrou incapaz de ajudar o Ray Rice, principal corredor do time, que entrou na temporada machucado e longe de sua forma ideal. A combinação de Ray Rice baleado e linha ofensiva medíocre não poderia ter dado em outra coisa: a 30ª colocação entre os ataques terrestres, com o Rice tendo a pior média de jardas por corrida entre todos os running backs da liga. E a ausência de um jogo terrestre eficiente acabou por sobrecarregar o Flacco (que, lembremos, estava sem seus dois principais recebedores, Boldin e Pitta) que, compreensivelmente, acabou por fazer uma temporada ruim.



Fato nº 5. Outro jogador fundamental no time dos Ravens era o Jacoby Jones, não só por sua atuação como wide receiver mas por seus retornos de punts e kick offs. Com isso em mente (e lembrando novamente das ausências de Boldin e Pitta), percebemos o quão desastroso foi o primeiro jogo dos Ravens com os Broncos, quando o novato Brynde Trawick trombou pateticamente com Jones, torcendo o joelho do companheiro e o deixando de fora de 5 jogos. Foi das jogadas mais engraçadas do ano.

Não tivesse sido tão triste.




Observando esses fatos, a conclusão que eu cheguei é que a temporada dos Ravens tinha tudo para ser um grande fiasco. Se o time conseguiu chegar até a última rodada com chances de classificação é porque ele se superou muito durante todo o caminho, e exemplos disso não faltam: a heróica vitória contra os Bengals na prorrogação, o alucinante jogo contra os Vikings com 5 touchdowns nos últimos dois minutos, o épico contra os Lions com o field goal de 61 jardas do Justin Tucker nos ultimos segundos são apenas alguns exemplos.

O torcedor dos Ravens não tem motivos para ficar se lamentando. 2013 seria mesmo um ano de transição, um ano para arrumar a casa. A classificação para os playoffs não veio, mas pra mim o time ficou no lucro e ainda foi generoso ao brindar seus torcedores com jogos maravilhosos e emocionantes. São esses jogos que acendem a paixão do torcedor e fazem o esporte valer a pena e eu saí de 2013 mais apaixonado pelos Ravens do que nunca.

Que venha 2014! 



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O Hobbit: O Fracasso de Smaug

É sempre um espanto quando você sai do cinema achando o filme uma merda e se depara com quase todo mundo dizendo que o filme foi maravilhoso.

Isso acabou de acontecer comigo após ver o segundo capítulo da trilogia do Hobbit, A Desolação de Smaug. Eu passei o filme inteiro rindo das bobagens que foram feitas pelos produtores e achando (quase) tudo muito mal feito, e saí do cinema pronto para ler opiniões que corroborassem essa minha percepção. Qual não foi minha surpresa em ver que a grande maioria das pessoas que viram o filme, adoraram. E isso engloba até os próprios críticos de cinema. Para se ter uma idéia, até o momento apenas 2 críticas dentre 44 no Metacritic foram negativas, e o filme está com a 112ª melhor nota no IMDb.

O que também me impressiona é como as pessoas são intolerantes com quem não gostou do filme. Para elas, se você não gostou, 1) você não é fã de tolkien e de fantasia e por isso voce não tem a capacidade de apreciar um filme maravilhoso como esse; ou 2) você é um fã de Tolkien xiita e tudo que não seja o livro pra você vai sempre ser uma merda.

Vi nesse meu espanto uma oportunidade de dar uma sobrevida a esse blog. Exponho, então, minha opinião sobre a mais nova obra do Peter Jackson.

Primeiramente, um breve histórico: eu gostei do primeiro filme. Tenho vários problemas com ele, tem muita coisa que poderia ser melhor, mas de maneira geral eu tenho uma opinião positiva. Sim, o filme é arrastado em muitos momentos, alguns personagens são mal explorados e algumas situações simplesmente não fazem sentido. Ainda assim, o filme consegue se sustentar em sua história principal.

Também não vou entrar no mérito de "ah mas é um absurdo eles dividirem um livros de 300 páginas em 3 filmes, não tem história pra isso". Todo mundo sabe que o grande objetivo do filme do Hobbit é ganhar dinheiro, e não há nenhum problema nisso. Isso também acontece com alguma das mudanças: a inclusão da elfa Tauriel, por exemplo, também não deixa de ser uma jogada comercial, para termos um personagem feminino e, teoricamente, aumentar o apelo com o público. Novamente, sem problemas. Tudo isso faz parte da dinâmica comercial que rege a indústria cinematográfica (e todas as indústrias, na verdade). E se isso te incomoda, basta pensar que sem essas coisas talvez o filme não fizesse o sucesso que faz (sucesso comercial, veja bem), e sem a expectativa desse sucesso o filme não teria o orçamento que tem, e sem esse orçamento muito provavelmente o filme nem sairia do papel (ou sairia com atores piores, com efeitos toscos, enfim).

Ao filme.

O grande problema do filme é o andamento. Ele não tem uma estrutura começo - meio - fim (bom, fim ele não tem mesmo, mas estou ignorando isso por enquanto). Ele já começa com a companhia sendo perseguida por orcs e se refugiando na casa do Beorn. E a partir daí segue-se uma quase infindável sequência de acontecimentos repetitivos ao extremo (ainda mais nos lembrando do primeiro filme): eles fogem, são capturados por aranhas, escapam, são capturados por elfos, escapam, são contrabandeados pelo Bard, escapam. A história não é desenvolvida - ela apenas é levada pra frente. Os personagens pouco são explorados - eles apenas entram e saem de situações de perigo.

E o que piora esse cenário já complicado são as subplots, que, enquanto no primeiro filme foram poucas e relativamente bem usadas, aqui elas simplesmente se proliferam servindo apenas para poluir o filme. Fazendo uma metáfora com uma metáfora (sim) feita pelo próprio Bilbo no primeiro filme de O Senhor dos Anéis,  "I feel... thin. Sort of stretched, like... butter scraped over too much bread". Entenderam? =|



A história funciona tão bem no livro porque Tolkien não se desvia do foco. Ela segue seu protagonista de maneira ininterrupta e alucinante, tornando a leitura elétrica e viciante para o leitor. Nesse filme, isso não acontece. A todo o momento somos desviados para acompanhar alguma outra trama, aí de repente volta pra história principal a toda velocidade, aí corta de novo pra mostrar um romance que ninguém liga, aí volta... a história não flui.

Uma breve análise das principais subplots:

1. Gandalf x Sauron: Ian Mckellen é de longe o grande ator do filme. A história que ele conta pouco influencia na história do Hobbit - na verdade o arco dele serve muito mais para criar um vínculo com a história contada em O Senhor dos Anéis. E, vá lá, é até legal, mas é uma grande perda pro filme manter ele afastado da trama principal. Foi legal ver ele usando mais magia pela primeira vez, e eu gostei de ter aparecido a silhueta do Sauron como se fosse o olho. Foi um toque legal. Pena que tudo foi estragado com a decisão do Peter Jackson de tentar ser artsy ao jogar a câmera dentro do capacete do Sauron over and over numa cena pseudo psicodélica que me levou aos risos dentro do cinema. Pena que não era essa a intenção.

E tem o Radagast né. É.


2. Triângulo amoroso Legolas - Tauriel - Kili: eu não vou nem deixar meu lado fã dizer que um romance entre anões e elfos seria tão impossível quanto elfos indo ajudar os homens em Helm's Deep (oh well...). E como eu já disse em algum lugar aí em cima, eu entendo terem adicionado uma personagem femina e, por que não, um romance pra ela. Acontece que foi tudo tão genérico que eu juro não ter entendido como muitas pessoas acima de 16 anos gostaram. Não há desenvolvimento nenhum. Eles se olham e é tipo "fodeu, sai de baixo". Aí eles tem um diálogo pseudo romântico que poderia ter ficado bonito, não tivesse o Peter Jackson tão pouco tato pra filmar a cena. Parecia que a qualquer momento a Tauriel ia começar a cantar, o Kili iria responder e de repente estaríamos vendo Moulin Rouge versão Terra Média. E que papel tem o Legolas nisso tudo? Ainda não entendi bem. O Thranduil fala lá como ele gosta da Tauriel, ele realmente parece gostar mas... talvez nem tanto. Ele age como se gostasse mas 'ah ok, vc prefere o anão né, beleza, no worries, vou ficar aqui matando orcs de buenas'. Não há nenhuma espécie de conflito.

E, bem, qual a importância desse romance pra história mesmo?

3. Kili morrendo com uma flecha envenenada: pra isso ter algum resquício de significância para a história, seria necessário que o romance tivesse sido melhor explorado - o que não aconteceu. Mas ainda assim teria sido uma trama que vai do nada a lugar nenhum. O único papel dela é dar algum tipo de importância à Tauriel. Então temos: a existência da Tauriel cria a trama do anão envenenado que por sua vez justifica a existência da Tauriel, e... sei lá, não tinha uma história de uns anões tentando invadir uma montanha dominada por um dragão?

 Ah é, e ela usa a Athelas-Erva-do-Rei whatever. Porque criar vínculos com o Senhor dos Anéis nunca é demais.

4. O disputa política de Esgaroth: ok, essa me deixou com vergonha. Could you be more generic? Estamos na França em 1789 ou o que? Eu já tava esperando aparecer o Robespierre pra cortar a cabeça do rei. Foi uma das histórias mais vazias que eu já vi. Eu não esperaria nenhum tipo de complexidade política do Peter Jackson, mas essa disputa entre monarquia x povo foi de lascar.

De volta à história.

Um ponto muito elogiado por todos foram as cenas de ação. Novamente, foi uma das coisas que mais me incomodaram. Se em O Senhor dos Anéis a habilidade atlética dos elfos já entrava no terreno do absurdo, tudo foi para os caralhos nesse filme, chegando ao ápice de vermos Legolas se equilibrando com um pé na cabeça de um anão e o outro na cabeça de outro anão, anões estes flutuando em barris que descem um rio a toda velocidade. Não bastasse esse equilíbrio, ele ainda atira flechas para todos os lados com a precisão que nem tem mais como nos surpreender de tanto que já foi explorada. E o que dizer da cena em que Bombur, o anão-bufão, quica com seu barril pelas margens do rio matando orcs a torto e a direito até parar, botar os braços pra fora e, de maneira cômica, iniciar a matança rodopiando em um CÍRCULO DA MORTE.

Poderiam ser cenas legais? Poderiam, se estivessemos falando de um filme diferente. Mas Peter Jackson optou por transformar o Hobbit, um conto infantil, em um épico sombrio de uma disputa entre bem x mal. De fato, muita gente ressaltou como esse segundo filme é ainda mais escuro e sombrio que o primeiro. Embora tenha seus alívios cômicos, o filme realmente é pra ser levado a sério, e eu nem quero entrar no mérito se isso foi ou não uma decisão acertada por parte dos produtores (dica: não foi), mas o meu ponto é: não faz sentido você colocar cenas de ação espalhafatosas e patetas e engraçadinhas em um filme que se leva tanto a sério. Simplesmente não funciona, elas parecem sempre out of place.

"Ah, mas no primeiro também é assim". É, em especial na cena dentro da montanha. Acontece que toda aquela sequência foi uma das únicas em que o Peter Jackson deixou esse lado sério de lado para fazer algo mais cartunesco. Os orcs subterrâneos retratados nessa sequência são todos meio engraçados, e o Grão Orc é uma piada. E digo isso como um elogio, foi o único momento dos dois filmes em que eu senti um pouco do espírito leve do livro. E nesse contexto sim, cenas de ação engraçadinhas funcionam.

Passando para outro tópico problemático: a edição. Aaah, a edição. A edição é tão mal feita nesse filme que no meio da sequência final do confronto dos anôes com o dragão, temos cortes para um dos anões em Esgaroth roubando um pouco de Athelas de um porco. E o que dizer do trecho onde os anões e Bilbo estão procurando a entrada para a montanha, até que Bilbo avista uma grande estátua com uma escada gigantesca. É, então, saudado por Thorin "você tem olhos afiados, meu amigo". Sim. Não são vocês anões que são CEGOS e não viram essa estátua MONSTRUOSAMENTE GRANDE com uma escada enorme que obviamente estará levando a algum tipo de entrada. O mínimo que os editores deviam ter feito é mostrar como o Hobbit estava longe dos anões, em algum lugar escondido com uma visão que ele só teria. Mas não, eles sempre parecem estar no mesmo lugar.

E temos também as cenas simplesmente ridículas, como o Balin (numa tentativa óbvia de fazer outra referência óbvia à trilogia de dez anos atrás, enche o peito e diz com aquela voz de "sou um velho sábio que nem o Gandalf": "A coragem dos Hobbits nunca deixa de me surpreender". O que? Quantos hobbits você conhece? Há quantos anos você está convivendo com eles? O que você sabe sobre eles?

E o dragão. Não vou negar: ele é do caralho, e a cena dele conversando com o Bilbo é, de longe, a melhor do filme (embora se eu tentar ser extremamente chato eu poderia dizer que ela se alongou um pouco demais), da mesma forma que a cena do Bilbo com o Gollum é a melhor cena do primeiro filme (coincidence?). Mas mesmo com o dragão eu tenho problemas. Me decepciona muito que ele caia dentro do mesmo clichê de tantos vilões ao ficar enrolado para matar os protagonistas enquanto tagarela. Ainda assim soa forçado demais ele não ter conseguido matar os anões durante tanto tempo (eles escapam do dragão diversas vezes...). Fazendo uma inevitável comparação com o livro: neste os anões nem ousam entrar em confronto aberto com o dragão. Eles sabem o quão estúpido isso seria. O único que entra em seu covil é o Bilbo, ainda assim usando apenas de sua discrição (e de seu anel) para vasculhar o lugar. E até mesmo a lógica interna do filme é ridicularizada: Smaug consegue sentir o cheiro dos anões no Bilbo, mas poucas cenas depois é incapaz de farejas os anões escondidos EMBAIXO dele.


E já que estamos falando dessa sequência, é das coisas mais absurdas de toda a série o modo como os anões conseguem reviver todos os mecanismos criados por seus antepassados em poucos segundos e formar um plano que envolve a criação de uma estátua de ouro gigante e seu posterior derretimento na vã esperança de

queimar o dragão. Sim, queimar o dragão. Um dragão que cospe fogo a qualquer momento. Foi para fechar o filme com a estupidez em seu nível máximo.

Aliás, fechar o filme é uma palavra muito forte, pois o filme não tem um fim propriamente dito. Ele simplesmente acaba. Não tem nenhum tipo de desfecho. Como não teve um começo também, acho que faz sentido não ter um fim. "Ah, mas a Sociedade do Anel também não tem um final e você adora". Sim, mas em A Sociedade do Anel  há uma lógica em seu fim, ele termina justamente com o rompimento da Sociedade. Isso não acontece de maneira nenhuma nesse segundo capítulo do Hobbit (talvez pela história original não ter sido pensada em 3 capítulos, duh). Na prática, é realmente como se a trilogia fosse um filme só e esse segundo filme fosse apenas o trecho intermediário. Talvez por isso o filme tenha sido tão prejudicado em seu andamento e falhado completamente em se sustentar como um filme sozinho.

Outros pequenos detalhes que me incomodaram:

1. Beorn. Pode ser um pouco de purismo, mas eu não gostei muito de como ele foi apresentado. No livro é bem mais legal e divertido, com os anões entrando em grupinhos de 3 hahaha mas vá lá, esse é um problema pessoal meu.

2. A facilidade com a qual os orcs invadem o reino dos elfos em Mirkwood. Eles chegam DE SURPRESA praticamente dentro da parada. Totalmente surreal. Como o Thranduil espera resguardar seu reino do apocalipse vindouro se apenas um pequeno bando de orcs consegue invadir seus domínios com tanta tranquilidade?

3. O suspense que é feito quando Bilbo perde temporariamente o anel na floresta. Eu entendo que o objetivo maior tenha sido mostrar como o hobbit já começa a demonstrar sinais de obsessão com o anel, mas a cena é tão tola e o suspense é tão inútil para quem já viu os outros filmes (quase todo mundo) que no fundo ela serviu mais pra gastar tempo do que pra qualquer outra coisa.

4. A trilha sonora extremamente genérica e mal utilizada feita pelo próprio Howard Shore.

Para não dizer que eu só falo mal, tiveram sim alguns pontos que eu gostei:

1. A introdução do filme em Bri, com o encontro entre Gandalf e Thorin. Ficou muito bacana, e explica um pouco de como surgiu a história.

2. O fato de o Bilbo só ouvir as vozes das aranhas ao botar o anel. No livro as aranhas realmente falam (de novo, é um livro para crianças). No filme, isso talvez ficasse tosco demais. A solução de deixar elas falando apenas quando ele bota o anel foi engenhosa e fez algum sentido. E as aranhas em si ficaram bem feitas, assim como as cenas de ação com elas (ainda que tenham havido alguns exageros como a parte dos anões arrancando as patas de uma delas).

3. Thranduil. Eu realmente gostei dele, em sua arrogância e imponência. E as discussões sobre ajudar na luta contra os orcs ou se fechar completamente para garantir a segurança de seu reino são interessantes e me fizeram lembrar de Gondolin.

4. Tauriel. Ainda que a elfa tenha ficado perdida em subplots sem a menor importância, eu gostei da personagem. Pena ela não ter sido melhor utilizada.


Enfim, são pouquíssimos pontos positivos em um mar de mediocridade. O Hobbit 2 falha em praticamente tudo que tenta, e eu ainda não achei uma resenha que me convença do contrário. Fica a expectativa para o terceiro filme. Acho que o Peter Jackson vai se sair melhor em um filme onde não vai haver muito pra onde ele enrolar, pois a idéia é que todas as histórias se juntem de alguma forma. E todos os desfechos ficaram para esse terceiro episódio, então eu realmente tenho a esperança de que possa sair algo melhor.

Até porque fazer algo pior vai ser bem complicado.